Insuficiência Cardíaca
1- Definição:
Antes de comentar sobre o que é a Insuficiência cardíaca, IC, vamos entender melhor o que é e como funciona nosso coração. O coração é um órgão composto basicamente por músculos, sendo responsável pelo bombeamento de sangue para todo nosso corpo.
É composto por 4 câmaras: átrio direito e ventrículo direito, sendo separados pela válvula tricúspide; e o átrio esquerdo e ventrículo esquerdo, separados pela válvula bicúspide ou também chamada de mitral. Os ventrículos são as cavidades maiores e mais musculosas, sendo, portanto as mais importantes no bombeamento do sangue para os tecidos. Para que você compreenda melhor a circulação do sangue em nosso corpo, acompanhe a figura abaixo.
Então, os tecidos recebem o sangue rico em oxigênio através das arteriais de onde retiram o oxigênio para usar no seu metabolismo. O sangue agora pobre em oxigênio volta para o coração pelas veias, chega no lado direito do coração, entra no átrio direito, depois no ventrículo direito, que o bombeia para os pulmões. Nos pulmões, o sangue volta a ficar rico em oxigênio, sendo, portanto re-oxigenado e levado pelas veias para o lado esquerdo do coração, cai primeiro no átrio esquerdo e depois no ventrículo esquerdo, de onde será bombeado de volta para os tecidos, reiniciando o ciclo.
Desse modo, a insuficiência cardíaca ocorre quando o coração não consegue mais desempenhar uma ou ambas funções eficientemente. Podendo ser por disfunção das câmaras esquerdas, as quais passam a não mais bombear sangue para os tecidos adequadamente, ou das câmaras direitas, as quais não conseguem bombear o sangue eficientemente para os pulmões ou então de ambos os lados, chamada de insuficiência cardíaca congestiva, ICC.
2- Causas de Insuficiência cardíaca:
A principal causa de insuficiência cardíaca é a isquemia cardíaca ou o infarto do miocárdio, no qual ocorre morte tecidual, ou seja, do músculo cardíaco, chamado miocárdio. Logo, quanto mais extenso for o infarto, mais músculo morrerá, conseqüentemente, mais fraco fica o coração. Se o infarto necrosar uma grande área, o paciente morre por falência da bomba cardíaca.
Outra causa comum de insuficiência cardíaca é a hipertensão arterial sistêmica (pressão alta) não tratada ou então tratada de forma incorreta. Quando o paciente apresenta uma pressão arterial elevada, o coração precisa fazer mais força para vencer essa resistência e distribuir o sangue pelo corpo. Como todo músculo, quando exposto a um estresse (resistência), começa a hipertrofiar, ou seja, aumentar de volume, semelhante ao que ocorre quando a gente freqüenta academia e passa a exercitar determinados grupos musculares nos aparelhos da academia e os mesmos começam a ficar maiores e mais definidos. No caso dos pacientes hipertensos, a parede dos ventrículos começa a crescer e ficar mais forte. É a hipertrofia cardíaca. O que parece algo bom, na verdade é a fase precoce de uma insuficiência cardíaca.
Como pode ser visto na figura abaixo, o coração hipertrofiado pela hipertensão apresenta as paredes mais grossas e conseqüentemente menos espaço para os ventrículos se encherem de sangue. Apesar de estar mais musculoso, o coração se enche menos e por isso bombeia menos sangue a cada batida.
Se a hipertensão arterial sistêmica não for tratada adequadamente, o coração continua a sofrer até o ponto em que não consegue mais se hipertrofiar. Imaginem um elástico que você puxa o tempo todo. Uma hora ele acaba por perder sua elasticidade e fica frouxo. É mais ou menos isso que ocorre com o coração. Depois de muito tempo sofrendo estresse o músculo cardíaco começa a se estirar e o coração fica dilatado.
Temos nesse momento um músculo que tem pouca capacidade de contração e um coração que já não consegue bombear o sangue adequadamente. O órgão se torna grande e insuficiente.
Outra causa comum de insuficiência cardíaca são as doenças das válvulas do coração. Sempre que uma válvula cardíaca apresenta alguma alteração, seja congênita ou adquirida durante a vida, tais como endocardite, febre reumática, calcificação das válvulas, gerando estenose valvular, insuficiência valvular, com isso o coração começa a ter dificuldades em bombear o sangue, iniciando-se o processo de dilatação semelhante ao da hipertensão.
3- Sintomas da Insuficiência Cardíaca:
Os sintomas da insuficiência cardíaca aparecem de forma progressiva e lenta e dependem da câmara mais afetada, do tempo de diagnóstico e da gravidade do quadro. A insuficiência do ventrículo esquerdo se manifesta com sintomas da baixo débito cardíaco, ou seja, de menor fluxo de sangue para o corpo. Os principais são a fraqueza, cansaço e falta de ar, chamada tecnicamente de dispnéia, aos esforços, os quais em fases avançadas da doença, o paciente pode se cansar, com tarefas simples como tomar banho, escovar os dentes e pentear o cabelo.
Outro sintoma típico é a falta de ar ao deitar, chamada de ortopnéia. Tal sintoma ocorre, porque ao deitarmos, o sangue que está nas pernas não sofre mais a resistência da gravidade e chega mais facilmente ao coração e pulmão. Se temos um coração esquerdo insuficiente e aumentamos a quantidade de sangue que chega ao pulmão, favorecemos a congestão pulmonar. Por isso, muitos doentes com insuficiência cardíaca não toleram ficar muito tempo deitado. Alguns precisam dormir com mais de 1 travesseiro para manter sempre o tronco mais alto que o resto do corpo. Chamamos esta fase de insuficiência cardíaca congestiva.
O paciente pode apresentar também tosse, inchaço, sobretudo de membros inferiores, chamado de edema, tonturas, palpitações, aumento das veias do pescoço, chamado de estase jugular.
Vale salientar que habitualmente, principalmente nos casos iniciais da IC, o paciente apresenta apenas uma parte dos sintomas acima, em graus variáveis. Uma pessoa tem mais tosse, a outra mais inchaço e assim por diante.
4- Diagnóstico de Insuficiência Cardíaca:
Como os sintomas não são patognomônicos, ou seja, não são exclusivos desta doença. Uma pessoa pode ter o mesmo grau de inchaço que outra, e a primeira ter insuficiência cardíaca e a segunda ter varizes, ou seja, apresentam o mesmo sintoma, mas que é devido a doenças diferentes.
Por isso, é preciso consultar-se com o médico, de preferência o cardiologista, o qual irá lhe questionar sobre seus sintomas, o tempo de aparecimento deles, quais são suas doenças de base, como diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica, dentre outras; fará um exame físico com ausculta do coração e dos pulmões, aferição da pressão arterial, dentre outros. E depois irá solicitar alguns exames complementares, que no caso de suspeita de insuficiência cardíaca comumente são:
• Radiografia do tórax, a qual faz uma reprodução fotográfica por intermédio dos raios X, mostrando aumento do coração, chamado cardiomegalia;
• Ecocardiograma: Método que investiga através de ultrassom a posição e a movimentação de certas partes internas do coração;
• Eletrocardiograma (ECG): Método de registro, em forma de gráfico, das correntes elétricas do coração. Evidencia sobrecarga ou crescimento cardíaco, ou isquemia miocárdica. Esse exame também pode mostrar o aumento dos átrios e taquicardia.
Vale salientar que não existe um melhor, mas sim os exames complementares indicados para aquela situação.
5- Tratamento da Insuficiência Cardíaca:
O tratamento para a insuficiência cardíaca envolve um grande número de opções e tem como objetivo promover melhor qualidade de vida para o paciente. Envolvendo tratamento não farmacológico, tratamento farmacológico e procedimentos mecânico-cirúrgicos, em alguns casos.
Dentre as medidas do tratamento não farmacológico que visam evitar os fatores contribuintes estão:
• Restringir a ingestão de sódio - sal de cozinha;
• Não ingerir líquido em excesso;
• Evitar ingestão de bebidas alcoólicas;
• Cessação do tabagismo;
• Praticar exercícios regulares leves, atentando para sinais de fadiga e dispnéia;
• Evitar estresse emocional;
• Evitar extremos de calor e frio, porque aumentam o trabalho cardíaco;
Em relação ao tratamento farmacológico, este se baseia no estágio da insuficiência cardíaca a qual o paciente apresenta e normalmente são administrado mais de um fármaco, sendo importante que o paciente faça seu uso regular, na dose e horários prescritos. Alem de realizar consultas regulares com seu cardiologista.
Por fim, o tratamento mecânico-cirurgico objetiva corrigir defeitos estruturais do coração ou promover ajuda mecânica à contração, se assim o paciente tiver indicação de acordo com os novos guidelines e condições clínicas-cirurgicas para se submeter a tais procedimentos.
Texto escrito por:
Jocélio Ramalho da Silva,
Acadêmico do 7° período do curso de medicina da UFRN